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RAIVA mortal

por alho_politicamente_incorreto, em 25.08.08

 

A Raiva matá-los-á
mas a Morte libertar-vos-á
 A mãe de Diogo, mulher com portentosa força braçal, que faz dela uma jóia da natureza em singular harmonia com as terras que cultiva, achou as queixas do filho - que agora constatara estar com febre - credoras da sua preocupação. Os gemidos de Diogo por culpa de umas estranhas mas constantes dores de cabeça condoíam o seu coração telúrico até porque o miúdo apresentava um mal-estar generalizado.
Neste últimos tempos e às horas das refeições, o tormento para o convencer a comer era crescente. Ele bem que se queixava que lhe doía a garganta e de não ter grande apetite. Nos últimos dias, até confessou à irmã que se sentia enjoado. Sofia, a mana caçula naquela tradicional família de agricultores, já confidenciara ao pai que estava difícil lidar com o irmão, com bruscas mudanças de comportamento, rematando “ela anda muito irritado!”.
Nesta situação que desassossega qualquer um, D. Alzira, a mão do nosso jovem Diogo, tomara a decisão de levar o rapaz ao Hospital. Eis se não quando ele, lá do fundo do curral, grita “venham cá!! Fui mordido por uma cobra! Depressa!!”. O pai chegara mas a cobra já se escapulira. Chamaram a ambulância. Durante a viagem, além de se queixar que parte da sua perna parecia estar anestesiada, só pedia à mãepara tomar conta do Afogado, o cão salvo pelo pai quando a morte quase o engoliu nas águas do rio lá da aldeia. Era ele o seu grande amigo, dos tais comparsas que se recrutam para as finas cumplicidades da vida. Além do Afogado, Diogo rogava protecção para os três canários cuja guarda sempre lhe coubera: Guloso (come que se farta!), Enjoado (quase que não come...) e Camarada, que está sempre pronto a ripostar aos estímulos do tratador.
Na unidade de saúde, os médicos procuravam investigar o tipo de cobra que o teria mordido. Só havia três hipóteses em função da especificidade daquele universo rural. Estabeleceram uma estratégia mas os fármacos não reverteram a situação. Instalara-se uma misteriosa apreensão. Os médicos sentiam estar numa encruzilhada. O tempo passava e Diogo estava já com a febre alta, delírios, contracções musculares e nem a água conseguia engolir.
Lá em casa, como que demonstrando uma dolorosa solidariedade, Afogado também havia mudado o seu comportamento. Procurava locais escuros para se abrigar, deixou de se alimentar e recusava atender aos (outros) donos da casa. O latido do cão era muito característico, emitido num duplo tom que jamais será esquecido por quem o ouviu. “O animal sente a falta do Diogo...” garantia o vizinho Armindo, enxugando com o lenço  os olhos enternecidos em razão de tamanha sensibilidade animal.
Ao fim de três dias, a consciência do nosso jovem estava prestes a abandoná-lo. Antecipava-se um quadro de coma. O sofrimento esgaçava até a equipa hospitalar que o acompanhava. Numa conversa mais séria e privada com a médica de família, que sempre merecera a empatia de Diogo, revela-se a verdade infelizmente tardia: Afogado tinha mordido o seu dono, que decidira poupá-lo ao abate. Ele sabia que o animal não estava inoculado com a competente vacina anti-rábica. Ironicamente, a Raiva estava a matá-los. Sim, porque a Raiva não tem cura. A morte é certa porque a propagação do vírus não poupa o cérebro.
Esgotados sete dias após o traiçoeiro ataque de Afogado, Diogo morreu. Afogado, que não conseguia locomover-se nem fechar o maxilar, babando-se copiosamente, enfrentou o tão temido abate.
No dia do funeral, Osvaldo, como pai enlutado, fez-se acompanhar de uma gaiola de madeira que ele próprio construíra. Lá dentro, espavoridos, estavam: Guloso, Enjoado e Camarada. O progenitor, chorando como uma criança, repousou a sua mão direita no caixão do filho e disse: “foste sempre um bom menino. A todos estimaste e protegeste, com carinhos e mimos, os que de ti dependiam. Restam estes canários. Vou libertá-los porque agora é que estariam presos.” Abriu a gaiola e e a multidão reunida no cemitério testemunhou a partida do trio que um dia foi livre sem conhecer os céus.
A Raiva matou uns mas a Morte libertou os outros.
José Manuel Alho
 
 
NOTA FINAL:Ainda que ficcionada, esta história aborda uma temática de interesse público. A Raiva é uma doença infecciosa aguda e fatal. O contágio dá-se pela saliva do animal que está com a infecção, principalmente pela mordida, mas pode ocorrer por arranhadura ou lambedura. O tempo médio de surgimento dos sinais de doença são de cerca de 45 dias no homem e até 2 meses nos animais. Os sintomas estão profusamente descritos na personagem do Diogo. A mortalidade da doença é de 100%. Aliás, o período de evolução do quadro clínico varia de 5 a 7 dias.
Para evitar-se a doença, é fundamental vacinar os animais susceptíveis, principalmente cães e gatos. Os animais apresentam como sintomas iniciais aqueles que Afogado manifestava: alteraações de comportamento, procura de lugares escuros para se abrigarem (Fotofobia), deixam de se alimentar, de beber água e de reagirem quando instados pelos donos. O latido ("duplo tom") de um cão com raiva facilita o diagnóstico da doença. Existem vacinas para cada espécie de animal.
Como já se fez notar, a Raiva, quando declarada, não é curável. Por isso, os meios profiláticos de vacinação são apenas preventivos e não curativos. Quando mordido por um cão suspeito de estar com Raiva, a vacinação subsequente do homem deve ser efectuada com máxima urgência de modo a que o organismo humano fabrique, a partir do estímulo da vacina, os anticorpos necessários à detenção da propagação do vírus em direcção ao cérebro.
Portugal, fruto de uma campanha de vacinação em massa, logrou erradicar este mal. Mas o risco persiste, em especial nos meios rurais.
 

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